A véspera de natal começou quente para aquele menino de quase oito anos. Quente, aliás, como todos os outros dias. E os que ainda virão. Da janela de sua pequena casinha de taipa, o menino acordou com fome e levantou-se da sua surrada rede. Seus quatro irmãos ainda dormiam, mas ele sabia que a fome também iria acordá-los em breve.
De pés descalços e sem camisa, o menino andou pela casa de um cômodo só. Perto do improvisado fogão à lenha, ele pegou uma caneca e a encheu com a água turva de um grande balde. Olhou para a caneca cheia e devolveu a metade para o balde. Lembrou de sua mãe. "Tem que economizar porque, logo, logo vai faltar", ela sempre falava. Ignorou o cheiro e bebeu a água com cuidado, sentindo-a em cada gole. Deixou a caneca sobre uma pilha de tijolos e saiu para fora. A penumbra quase fresca da pequena casa deu lugar a um já forte e impiedoso sol.
O menino fechou os olhos num reflexo, abrindo-os novamente depois de algumas piscadas. A grossa sola de seus pés pisaram na terra quente e seca. Ele colocou a mão sobre a testa, como uma viseira, e percorreu com os olhos a linha que separa o céu do inferno, à procura de sua mãe. No horizonte, o céu azul se confundia com a terra seca e rachada, num dançante e fantasmagórico mormaço. Uma eterna e angustiante tentativa de misturar o não-misturável.
Ele pensou onde estaria sua mãe agora. O pequeno córrego, atrás da pequena colina de terra, já havia secado fazia uns quatro dias. Ela devia estar então na pequenina vila, três quilômetros ao sul, esperando a vez na fila do caminhão-de-água.
O menino sorriu com a esperança de poder beber uma água um pouco melhor mais tarde, no mesmo momento em que seu estômago reclamou a falta de comida. Lembrou-se das histórias de sua mãe. Uma vez ela contara, em lágrimas, que houve um tempo em que a família tomava café da manhã e ele lamentou ainda não ter nascido nessa época. Segundo ela, foi na mesma época em que seu pai saiu de casa para tentar a vida numa cidade grande, ao sul. Ele foi e nunca mais voltou.
O rapazinho há muito tempo desisitiu de tentar imaginar como era seu pai. Então, voltou para a realidade, apertou a barriga inchada, fez uma careta e caminhou sob o sol escaldante até sua pedra preferida. Foi andando por onde era uma antiga picada no meio de uma minguada mata cerrada. O mato em volta do caminho foi secando, morrendo e agora tudo não passava de terra esturricada.
Chegou na grande pedra e sentou-se na sombra projetada. Limpou o suor do rosto com as costas da mão e ficou surpreso com o modo como arfava. Não se lembrava de arfar tanto durante as inúmeras vezes que visitava sua pedra. Descansou um pouco enquanto ouvia, de longe, a balbúrdia que seus irmãos, já acordados, faziam dentro de casa. Ele praguejou um palavrão ao saber que não tinha muito tempo antes que eles o encontrassem e viessem lhe importunar.
Cavou num ponto marcado embaixo da grande pedra com a rapidez de um tatu. Ou quase isso. De dentro do pequeno buraco, tirou uma empoeirada, surrada e enrolada revista velha. Ganhou-a de presente de natal, no ano passado, de uma amiga de sua mãe, quando ele acompanhou-a até a pequena vila. A revista não tinha mais a capa - rasgada por um de seus irmãos - mas, assim mesmo, era a coisa mais preciosa que o pequeno menino possuía. Ele começou a folheá-la página por página, percorrendo com o pequenino dedo sujo os textos, as matérias publicadas, procurando por algo específico. Não sabia ler, mas fingia dominar com maestria as palavaras e os textos impressos.
Oito páginas adiante, ele finalmente encontra o que procurava. Uma propaganda sobre o natal, ilustrada por um grande desenho de um Papai Noel enorme, gordo e barbudo dentro de uma casa. Sorridente e de bochechas rosadas, ele segurava uma garrafa que o menino já vira antes no boteco do seu José. Ao lado esquerdo do barbudo de vestes vermelhas, uma árvore diferente de todas as que ele conhecia. Era de um verde bem escuro e cheia de bolas coloridas e brilhantes. Do lado oposto, uma grande janela mostrava a neve caindo do lado de fora.
O menino lembrou-se do dia anterior, quando seu amigo, vindo da cidade, dissera-lhe que amanhã será natal. Ele já tinha ouvido falar em natal, mas não tinha muita noção do que era realmente. Mas lembra-se de ter mostrado a revista para sua mãe e quando mostrou-lhe o desenho do Papai Noel, ela olhou rapidamente, suspirou e disse "isso aí é o natal", sem dar muita importância à gravura. O menino, então, apontou com o dedo sujo de terra seca para a janela cheia de neve do desenho e sua mãe, já irritada falou "sei lá o que é isso, moleque! É...neve! Deve ser neve! E não me enche mais com essa merda!".
Neve. Desde então o menino espera pelo natal. Não lhe interessava o velho gordo e barbudo, nem a árvore de bolas brilhantes, tampouco a bebida escura que Papai Noel segurava com tanta satisfação. O que lhe encantava eram os pequenos pontos brancos que caíam do lado de fora da grande janela daquela casa bonita: neve.
O pequenino olhou o teto azul-aquarela sobre sua cabeça e tentou imaginar a neve caindo sobre seu rosto, sobre seus joelhos, sobre o chão seco e quente. Será que era fria? Ou quente como as brasas do fogão de sua mãe? Seria pesada? Ou leve como uma pena de galinha? Não sabia, mas algo dentro dele lhe dizia que a neve era leve como o vento. Enfim, muitas dúvidas maravilhosas. Como as mágicas que o velho carpinteiro, que mora na entrada da vila, fazia vez ou outra.
Num susto, seus devaneios foram interrompidos pelos gritos de seus irmãos que, aproveitando a sua distração, tiraram-lhe a revista. O menino levantou-se e pôs-se a tentar recuperar seu precioso tesouro, que era jogado de mão em mão entre os outros garotos que riam e se divertiam. O menino avançou no irmão mais velho e conseguiu agarrar a revista. Mas o irmão não a largou e, no puxa-puxa, ela se rasgou e se desfez. As páginas voaram e foram trituradas pelos outros irmãos, por pura farra.
O pequenino rapaz não chorou. Faz tempo que ele não chora mais. Aprendeu a suportar os percalços da dura vida no sertão nordestino com resignação e com uma sincera, porém inocente força de vontade. Ele não chorou quando seu cachorro morrera de fome. Não chorou quando vira sua mãe apanhar de um desconhecido dentro de sua casa. Não chorou quando o estômago dobrara de fome e de dor, dias atrás. Nem quando seus lábios racharam e sangraram de sede.
Por isso, não choraria por uma droga de revista. Seus irmãos iriam lhe pagar, mais cedo ou mais tarde. Comeria o angu de um. Depois de outro. Derrubaria a caneca d'água deste. Faria a mãe arrancar o couro daquele. Ou, talvez, simplesmente esquecesse o incidente. Depois de um tempo, tudo voltaria a ser como antes. A vida seca e dura não deixava lugar para rusgas familiares.
Mas a neve não saiu da cabeça daquele minguado menino de barriga inchada. O natal veio, como um dia qualquer. Quente. Seco. Parecia até pior do que os outros dias. Nada parecido com a paisagem verde e fresca e coberta de neve na ilustração da revista.
Os dias se foram e com eles as semanas. E os meses. Até que chegou uma nova véspera de natal. O menino adoeceu. Estava anêmico. Subnutrido. Passou o dia inteiro na rede da mãe, fitando o sol por um buraco no teto. Os últimos dias tinham sido cruéis para a família. A mãe, resignada, preparava um pouco de sopa feita de farinha, três batatas e um pequeno pedaço de carne, dada de bom grado pela vizinha. A mãe do garoto parou de mexer aquela sopa tão rala e ficou vendo a água borbulhar. Parecia querer fazê-la aumentar e engrossar apenas com o olhar.
Todos comeram a sopa em minutos. A mãe desfiou e dividiu a parca carne entre os filhos. O menino doente sorveu algumas colheradas da sopa. Sentiu o estômago um pouco aquecido e dormiu.
Quando acordou, à noite, sentiu um cheiro bom de comida no ar. Seus irmãos brincavam com entusiasmo pela casa de um cômodo só. Sua mãe estava debruçada no velho e improvisado fogão à lenha. Virou-se e lhe deu um sorriso com os poucos dentes que ainda lhe restavam. Ela veio até ele com uma pequena cumbuca fumegante com batata cenoura, um bom pedaço de carne seca, uma banana e arroz.
O menino ficou deslumbrado com a brancura do arroz, que nunca tinha visto na vida. Pegou alguns grãos com a mão e deixou-os cair na cumbuca. "Neve", ele pensou. "É neve!". Olhou para a mãe, que disse "come antes que esfria". Ele pegou a comida com uma das mãos e comeu devagar. Sentiu o estômago estranhar o farto banquete mas, não demorou muito, estava comendo com vontade aquilo que acreditava ser a neve do desenho natalino da revista.
No dia seguinte à vespera de natal - e em todos os outros natais, desde então - a mãe do garoto contou aos filhos de onde viera toda aquela comida. Naquele dia, ela tinha ido à vila tentar arrumar um pouco mais de alimento para seus filhos. Tinha pedido ajuda ao padre da pequena igreja. Ao seu Francisco, dono do armazém. Ao "dotô" Almeida, da farmácia. Poucos tinham como ajudar. No entanto, ninguém a ajudou. Desesperada e cansada, ela sentou no meio fio de uma esquina e chorou. Agarrou a imagem de Nossa Senhora talhada em madeira, que usava no pescoço - presente de seu falecido pai - apertou-a entre as mãos e ficou choramingando e fitando os próprios pés grossos e cheios de poeira.
Então uma sombra encobriu-a. Ela olhou devagar, de baixo para cima. Viu dois pés sujos, descalços e machucados. Viu uma surrada túnica de linho. Viu dois braços segurando uma caixa de papelão. Viu uma estranha cicatriz em cada uma das mãos que seguravam a caixa. Quando olhou para cima, porém, não conseguiu ver quem era aquele homem. Apesar do sol estar atrás da cabeça dela, parecia haver um outro sol atrás também da cabeça daquele homem, cujo brilho ofuscante não deixou que ela visse quem era. Ele se agachou, deixou a caixa aos pés da espantada mulher. Junto deixou também um grande saco de pano. Ela abaixou a cabeça e leu a inscrição na caixa, letra por letra, porque era semianalfabeta. Era uma cesta básica. Ela abriu um grande sorriso cheio de lágrimas e quando levantou o rosto para agradecer, a esquina estava vazia. Ela olhou o saco de pano e viu batatas, cenouras, frutas e uma boa peça de carne seca.
Cansada, fraca e sozinha, ela carregou os mantimentos de volta para casa. Parou para descansar uma, duas, oito vezes. Chegou em sua maloca já a noitinha. Descansou por quase uma hora, rindo e chorando ao mesmo tempo, enquanto apertava a santinha de madeira numa das mãos. Depois, foi tratar de dar de comer a ela e aos seus filhos.
O menino magricela e de barrida inchada ouviu tudo sem entender muita coisa. E ouviu a história muitas vezes. Pela boca da mãe, dos seus irmãos e dos habitantes da vila, durante um bom tempo. Os meses se passaram e a vida continuou dura e seca, como sempre.
A diferença é que, agora, sempre quando o natal se aproxima, o coração do menino fica mais agitado. Não pelo velho gordo da revista que já não existe mais. Nem pela árvore verde e cheia de bolas coloridas. Tampouco pela bebida escura, na mão do gordo vestido de vermelho. Mas pelo que caía no lado de fora da janela, no desenho da revista. Sempre que pensa nisso, sua barriga ronca. Tudo que o menino quer no natal é poder comer mais um pouco de neve.
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Nossa, animal! A comparação da neve e o arroz foi fantástica Aureão!
Baú do Bart disse...
3 de maio de 2009 às 17:54
Valeu, meu amigo! 8)
Aureo disse...
4 de maio de 2009 às 15:25