A casa da minha sogra anda cheia de problemas. Muitos mesmo. Casa velha, né? Quando os problemas começam a aparecer, é um atrás do outro. E eu tive a "sorte" de ser o único homem da casa (meu sogro foi-se há alguns anos e acabei acumulando a função de faz-tudo da família da patroa).
Mas, tudo bem. Se posso fazer, eu vou e faço. Enrolo um pouco, mas faço. Então, que as cadeiras da mesa de jantar da sogra precisavam ser reforçadas. O ideal seria trocá-las, mas o ideal custa caro. Assim como custa caro, também, mandar arrumar. Eu vi umas cantoneiras de ferro nas pernas das cadeiras de um restaurante, uma vez. E pensei: "taí uma solução simples e fácil". Fui ver quais cadeiras precisariam do reforço. Todas. Seis cadeiras, quatro pés em cada cadeira, vinte e quatro cantoneiras, quarenta e oito parafusos. Enquanto os números se multiplicavam, meu ânimo foi-se diluindo na mesma proporção.
Antes de continuar, tenho que deixar bem claro que fujo desse tipo de serviço simplesmente porque não tenho o menor jeito pra coisa. Fiz minha vida olhando pra um computador e raramente faço algum trabalho braçal. E havia outro problema. Eu tinha que fazer e fazer direito, afinal as cadeiras não eram minhas. Pior: eram da sogra (violinos à la Hitchcock!).
Bom, fui me informar com um colega meu, mais experiente, sobre os procedimentos para fazer o serviço. "Não tem erro. Compra uma broca pra madeira, bem fininha. Usa o furo da própria cantoneira como medida e, com a broca e a furadeira, faz o "caminho" para o parafuso entrar mais fácil. Não tem erro!"
Então tá!
Demorei um bocado pra achar as benditas cantoneiras. Comprei também os parafusos e duas brocas. Uma bem fininha e outra, um pouco mais grossa (nunca se sabe). Deixei tudo pronto e aguardei o melhor dia pra ir na casa da sogra. Um dia de boa disposição. Uma sexta-feira sem chuva seria o ideal.
Passaram-se algumas sextas-feiras ideiais. Mas minha boa disposição não deu o ar da graça. Empurrei o trampo pra frente o quanto deu. Até o dia em que vi que não adiantaria mais protelar. Então fui. Sábado passado. E ameaçava chover. 8/
Na teoria, tudo era muito simples. E até que foi mesmo. Furei os pés e a base da primeira cadeira. Ajustei uma cantoneira e comecei a apertar o primeiro parafuso. Na metade do bicho, ele começa a ficar cada vez mais duro de apertar. Com certeza, alguém mais forte não precisaria de tanto esforço, mas este magrelo aqui, com "mãos de moça" penou bastante para apertar o primeiro. E, já suando, consegui. Beleza. Faltam só quarenta e sete. ¬¬
No segundo, o mesmo esforço. Fiquei pensando "qual é o problema? O caminho tá feito, justamente pra evitar fazer muita força. Por que o maldito parafuso não entra?" Peguei a broca e alarguei ainda mais o "caminho". Não adiantou. Então tinha que ser na base da força mesmo. Muito suor, uma bolha estourada na mão direita e mais um parafuso apertado.
Foi então que eu vi, na minha maleta da furadeira, a minha salvação: uma ponta de fenda pra furadeira! "Awwww! Aí virou!", pensei. Peguei a furadeira, troquei a broca pela ponta de fenda e comecei a apertar o terceiro parafuso. Pra vocês terem uma idéia do quando estava duro o trampo, nem a furadeira conseguia apertar o parafuso de uma vez. Quase no final, tive que ficar forçando a furadeira, dando umas "aceleradas" como os carros de F1 antes da largada. Numa dessas, ouvi um "plec!". A cabeça do parafuso quebrou!
Danou-se. Não tinha como retirar o parafuso descabeçado de dentro da madeira. O que significava que aquele pé da cadeira estava perdido. Ainda bem que eu comecei com uma cadeira que já estava bem detonada e que já não davam mais nada por ela. Eu posso não ser forte, mas minha cabeça compensa essa limitação, às vezes. Tentei o artifício da "fendadeira" em outro pé e outro parafauso. Quebrou também. Não tive escolha: nada de furadeira pra apertar parafuso.
Como começou a chover (mais essa!) tive que fazer o resto do serviço na cozinha, sem lugar para apoiar as cadeiras. Foi no chão mesmo. Agacha, fura, fura, vira a cadeira, fura, fura, vira a cadeira, fura, fura, vira a cadeira, fura, fura. Senta, bota a cadeira no colo, parafuso, chave de fenda, aperta, aperta, apeeerta, apeeeeeeerta, apeeeeeeeeeeeeerta...E pega outra cadeira...e outra...e outra...
Três horas mais tarde, faltava apenas uma cadeira, mas eu estava um caco. Minha mulher me aconselhou a usar a furadeira como chave de fenda novamente, mas sem forçar. "Dane-se que o parafuso não vai ficar perfeitamente apertado." Era tudo o que eu precisava ouvir. Com todo o cuidado do mundo, apertei os parafusos da última cadeira, usando a furadeira, até onde deu. E, quer saber? Ficou bom pra caramba. As cadeiras ficaram bem firmes. E eu, bem quebrado.
No dia seguinte, em casa é que fui perceber quanto foi o meu esforço: as batatas das pernas super doloridas. As palmas das mãos (perto dos dedos) doloridas e ardendo. Duas bolhas estouradas. Braços doloridos.
Mas, apesar de tudo, estou super satisfeito. Gosto quando "dou o sangue" num trabalho e chego em casa cansado e quebrado. Melhor ainda quando tudo dá certo. É uma sensação de "dever cumprido", sei lá. Me sinto mais merecedor com relação à minha qualidade de vida.
Ah, claro. Hoje já fazem cinco dias e ainda sinto o "merecimento" pelo corpo todo. Mas tá passando... 8)
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