Cozimento

"Quando tudo parece horrivelmente quente, de repente, me vejo dentro de um caldeirão. Me ajeito perto de outro coitado, uma coitada aliás. Os olhos dela fitando um ponto além do caldeirão. Não há água, exceto o suco viscoso que verte de todos os desafortunados que – como eu – também foram jogados no escaldante destino. Encosto e deslizo no corpo melado da minha companheira de caldeirão. O ar é quente. Pesado. Sufocante. A grande panela balança vez ou outra, jogando-nos um ao outro. A visão fora do caldeirão é de imagens turvas, dançantes, derretidas.

Entram mais condenados. Se amontoam perto de mim. Alguns ainda bem crus, trazem um pouco do frescor de um freezer. Muitos, porém, já foram dourados, flambados, pré-cozidos. A cada chacoalhada da panela ouço gemidos, suspiros secos. Rostos em transe. Gotas quentes pingando das carnes e nas carnes. As peles parecem descolar. Tudo gruda. Membros pegajosos. Faces disformes. Entrâncias escorregadias.

Não falta muito agora. Estamos quase no ponto."

O texto acima podia ser sobre o destino de pobres camarões numa panela. Mas é apenas como me senti ao pegar o ônibus hoje à tarde, antes de vir trabalhar. E a chuva ameaça, passa pelos pobres paulistas e – caprichosamente – vai embora, sem deixar um pingo sequer. Safada.

E pensar que meu querido inverno ainda tá looonge!... 8(

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