O dia hoje começou muito estranho. O elevador já me esperava no saguão. Ao chegar no térreo, a porta do elevador foi aberta, antes que eu a empurrasse, por um dos seguranças que queria entrar. Subi a penosa escadaria que dá acesso a avenida. Nuvens escuras e nervosas no céu. As ruas estavam incrivelmente vazias. O semáforo, caprichosamente, estava fechado e atravessei sem precisar parar.
Meu amigo taxista – minha salvação quando perco a hora – já está no ponto de táxi e me cumprimenta de longe, com um aceno apenas. Com exceção de um ou outro carro que passava, meu caminho até o ponto de ônibus foi tranquilo demais. Mais que isso. Foi silencioso demais. Não havia um canto de pássaro sequer. Um vento fresco, resquício de uma noite chuvosa, batia em meu rosto trazendo o cheiro de terra úmida.
Cheguei ao ponto de ônibus, que sempre tem ao menos meia dúzia de pessoas aguardando suas respectivas conduções. Também vazio. Apenas eu e uma mulher. Procurei com os olhos por algum outro ser humano. Na curva da avenida, lá na frente, mais uma pessoa caminhando. E só. "Será feriado?" Olho a data no meu celular. Não, não é.
Meu ônibus chegou no horário de sempre. Entrei, cumprimentei o motorista e o cobrador, como de costume. E percebi que o ônibus estava também estranhamente vazio. Geralmente, há lugares vazios mas, hoje, haviam vários disponíveis. Dava pra escolher onde sentar. Ajeitei-me junto à janela e, durante a longa jornada até o trabalho, fiquei a observar o fraco movimento no interior do ônibus. Alguns poucos rostos conhecidos adentram o veículo, se cumprimentam e se acomodam. As ruas já não estavam mais vazias mas, ainda assim, o movimento era bem menor que o habitual. Adultos, crianças, automóveis...o vai-e-vém matutino paulista. Onde estão todos?
Na janela, o sol dava suas caras meio sem jeito, pintando de dourado as bordas das nuvens pesadas. De repente uma gota de chuva bate no vidro e me assusta um pouco. Espero pelo início da chuva, mas ela não vem. Foi só uma gota. Uma única e solitária gota. Sinto uma ansiedade me apertar o peito.
Cheguei no prédio onde trabalho. Poucas pessoas entrando. Fora isso, tudo normal.
O sol apareceu um pouco mais, trocando a brisa fria por um calor acolhedor. Acendi um cigarro, como sempre faço, e fiquei ali, na entrada do prédio, tentando entender essa manhã estranha.
Talvez nada tenha sido tão estranho assim. O tempo chuvoso talvez tenha feito as pessoas dormirem até um pouco mais tarde. Talvez hoje tenham começado as férias escolares. Há vários motivos pra achar que tudo está como antes. Mas é algo dentro de mim que me incomoda. Essa sensação de que o dia está diferente. Está um tanto surreal. Mais que o dia de fato, é esse sentimento de que algo hoje está fora do padrão.
Será que há algum significado nisso? Uma coisa é certa: hoje é especial. Mas eu não sei porque e talvez nunca saiba. O pior é que isso vai ficar na minha cabeça até a noite. Que saco. Quisera eu poder decifrar esses pequenos mistérios que a vida nos oferece...
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