Senta Que Lá Vem Oitenta

Quino (cartunista e criador da saudosa Mafalda), confessou numa entrevista que os Beatles estragaram-no musicalmente, porque ele não consegue gostar de nada que não tenha sido composto pelo quarteto de Liverpool.

Eu posso dizer o mesmo sobre a minha relação com a música dos anos 80, principalmente o rock. Uma década de explosão de criatividade, de excessos, de modismos, de estilos. O som da sua banda tem algo de diferente? Não se encaixa em um estilo específico? Crie o seu! Gêneros e sub-gêneros foram criados em prol da exclusividade. Uma forma de obter um lugar num espaço cada vez mais cheio. O heavy metal foi, talvez, o gênero mais subdividido. Contem comigo: trash metal, death metal, black metal, white metal, speed metal, power metal, doom metal (este, já no início dos anos 90)...acho que nenhuma siderúrgica tem tanta variação desse elemento mineral.

O exagerado apelo visual foi outra forma de chamar a atenção. E bota exagero nisso. Os enormes cabelos "bolo-de-noiva" e os ternos largos do new wave; toneladas de tachas, pregos, correntes para os metaleiros; maquiagem, fitinhas coloridas, cabelos armados e calças super apertadas para o pessoal do hard e do glam rock. E havia também o visual "me-come-senão-eu-canto" da Madonna e o "menina-despirocada-do-gueto-nova-iorquino" da Cyndi Lauper (que, alíás, fez um showzaço quando passou aqui em São Paulo). Tem também o "punk-mauricinho" do Billy Idol, os "andróides-não-têm-noção-do-ridículo" do Devo. Vixe...a lista é looonga. Apesar do visual apelativo, as músicas eram boas e contagiantes, não importa se era pop (Michael Jackson), dance (C&C Music Factory) ou gótico (Sisters of Mercy).

Hoje, o visual não importa tanto. Isso não é ruim, embora deixe tudo meio sem graça. Alguns talvez pensem que a falta de um visual mais – digamos – elaborado, seja compensado com mais dedicação à boa música. Mas não é o que acontece. As bandas de rock de hoje não têm graça nem carisma. O som está mais simples e, o que poderia soar como "mais sincero" ou mais "autêntico", decepciona. As músicas são mais descartáveis. Não há "aquela" música "daquela" banda, que ficará na cabeça durante anos. Os clássicos são coisas do passado.

Até mesmo as bandas que tentam inovar, não convencem. Link'n Park (é assim que se escreve isso?) tem um vocalista formidável, mas rock com rap sempre vai soar esquisito. Só deu certo com o Aerosmith e o Run DMC. E com UMA música só: Walk This Way. O heavy metal e o hard rock foram-se pra sempre. As bandinhas de hoje não duram dois CDs. E as musas pop então...cadê? Britney Spears? Afvrils Laviguinhe? Há também outras menininhas-loirinhas-bonitinhas que nem me importo em saber o nome, que fazem uma maçaroca entre o pop-rock-country-R&B. A sede de agradar ao maior número de pessoas possível está criando esta nova onda de artistas sem personalidade e de pouquíssima - ou muito diluída - inspiração.

Talvez a febre do MP3 tenha uma boa parcela de culpa nessa chatice em que se encontra a música internacional atual. O disco de vinil sempre contribuiu para o sucesso de artistas e bandas. Verdadeiras obras de arte – principalmente no mundo metaleiro – o visual dos discos era um convite para ouvir a "bolachona" do início ao fim, deitado no sofá da sala, enquanto se procura curiosidades nos detalhes da arte da capa, ou frases engraçadas nos créditos do encarte.

Não há mais esse vínculo – quase uma cumplicidade - entre artista e público. Tudo o que resta hoje são músicas soltas e solitárias na "grande rede". E uma música só, dura apenas poucos minutos. Mesmo que agluém tenha a discografia completa de um artista em MP3, ela passa despercebida dentro do HD, porque falta algo mais "material".

Isso é triste. São por essas e outras que, quando quero escutar música, me tranco no meu "mundo oitentista". Um mundo de exageros, de alegria, de histeria...de solos de guitarra. E "numb", "confortably numb".

1 comentários:

Sinto falta das capas e dos encartes também. Fui pra Bolivia no ano passado e comprei um ipod, além das músicas gastp horas enchendo ele com as capas e infos dos discos pra suprir essa falta que você citou.

28 de março de 2009 às 14:40  

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